Sol
Chegara, enfim, um novo dia. Uma chance de resolução. O rapaz encontrava-se em um turbilhão de sensações, sentia um intenso medo de seu destino, por ser definido totalmente por ele, mas sentia, também, grande alívio, por então escolher algo para si. A proposta era simples, para ingressar ao curso, seria necessário realizar e pontuar bem no teste. Por mais que o rapaz estivesse sem prática, algumas coisas são como andar de bicicleta, basta aprender uma vez.
Levantou já pensando no teste, lavou seu rosto e escovou os dentes como em um ritual. Porém, de forma diferente.
Possuía experiência em testes, e, se levasse em consideração todos que havia feito, tinha mais sucessos que fracassos. Seus fracassos eram, sim, aterradores e humilhantes, mas isso pela maldita esperança que insistia em nutrir em tudo que se move, pelo seu delírio de tocar o sol. O dia era diferente, a esperança havia evoluído para uma certeza, esse nível de teste era vencível. Tentou se colocar em dúvida e para baixo, mas, bem lá dentrinho, bem dentrinho mesmo, já sabia que tinha tudo para conseguir, já começava até mesmo a pensar em desistir dos outros testes, já que o tal curso já unia tudo que era de seu gosto. Foi sentindo-se assim que ele foi enfrentá-lo.
Realizou e se sentiu seguro, voltou admirando como o dia estava claro e como o céu estava azul, até mesmo ignorou a estreita faixa cinza de fumaça que nunca some na cidade, almoçou tranquilo e ria a vontade, olhava o astro rei com humildade, como se estivessem no mesmo plano, ficou esse tempo livre de qualquer ansiedade, o máximo que sentiu foi um pequeno aperto quando viu que dava o horário da divulgação do gabarito. Revisou-o minuciosamente.
Sendo generoso, tinha sido patético. checou duas vezes, que foi o que conseguiu sem sentir vergonha, o coração batendo forte, bem ao lado do imenso vazio que havia se formado em seu peito, como se estivesse prestes a tocar o sol quando suas asas derreteram e o atiraram em uma estaca chamada realidade fincada no chão. Fingiu que nada tinha acontecido durante o restante do dia, mesmo dilacerado, não contaria nada a ninguém, esperaria que perguntassem para desviar e dizer que não era pra ser, mas, se ninguém desse de perguntar, não tinha problemas em morrer sendo o único a saber.
Perguntava a tudo como poderia isso ser real, como podia ele ter mais uma vez ter desperdiçado uma chance real, destruído algo realizável. Sentiu-se a menor pessoa do mundo. Por um instante, o mundo parecia devorar-lhe, tudo ria de sua imagem e fracasso, e ele pensava em como iria responder quando achassem que já havia passado tempo suficiente. Não tocou mais em sua caixa portátil de emails, por onde havia sido noticiado seu desastre. Lavou o rosto e escovou os dentes apenas como um velho ritual.
Na manhã seguinte, ritual feito, vazio profundo, mesmas questões. Quando sua caixa emailótica sacudiu e o chamou, ele, por simples reflexo, mirou o olhar para ela, leu o nome da fazedora do teste. Como ninguém sabia ainda, deu uma espiada apenas para saber do que se tratava.
Uma surpresa, boa surpresa! Alguém, por descuido ou por controle de irrisório palhaço destinário, havia trocado as respostas, mas que já estavam alterando os resultados e enviando uma nova versão do gabarito. No ato, já foi confirmar, da forma mais escondida que conseguia, as novas relações, o que acabou sendo uma precaução desnecessária. Tinha realizado performance positiva, segura, da forma que esperava. Só então deu de contar à mãe e aos tios.
Olhou mais uma vez para o Sol, se sentiu envergonhado por tudo que sentiu antes, por tão performáticos sentimentos e sofrimentos. Depois da vergonha, retornou ao estado de tranquilidade. Sorriram e festejaram durante a noite. O rapaz se sentia leve, enfim. Os pesos que retinha em seus ombros reduziram, suas asas iriam abrir novamente, aquém do peso do pecado mor de simplesmente viver. Divertiu-se tanto que nem se preocupou com os detalhes do seu conquistado ingresso. Por uma noite, apenas, se permitiu assistir TV sem preocupações, sem culpa. Foi a melhor noite das últimas quinhentas e dos próximos mil.
Semana após, deu de ver como se fazia para entrar, leu sobre toda a documentação e o pagamento da taxa, que não era tão alta. Procurou, por todo canto, onde se dizia sobre ajuda de custo ou coisas parecidas, já que a instituição tinha custo além de renome, e pensar nunca é suficiente. Realizou. Não havia procurado se isso sequer existia, sentiu suas asas fecharem, seu corpo adentrar o chão e sua visão se tornar turva. Mais uma vez nutrira esperanças. Mais uma vez se frustraria. Procurou em toda a parte, havia de existir, alguma forma, qualquer chance, buscou por longo tempo, sem resposta.
Foi buscar o auxílio de sua mãe, que iniciou a contar, pensando como eles poderiam fazer acontecer; quando dependia dele, ela estava disposta a qualquer coisa, daria a própria vida para manter uma fagulha de sonho acesa. Fez com que as contas batessem, mesmo que isso fosse impossível. O rapaz percebeu, findou, pensou em ir atrás dos tios, mas, sabia que, pelos mais diversos motivos, não poderia; pensou em uma infinidade de pessoas, sabia que se o bem quisessem poderiam ajudá-lo, porém tudo é individual, eis a lógica do mundo. Ninguém era ou seria como a mãe.
Então, deixou que se fosse, o sonho, a chance, o novo dia, a esperança, que já nascera perdida. Lembrou, mais uma vez, que existem portas que não se abrem, não para ele. Prometeu, apenas, que seria a última vez que tentaria tocar o Sol.
