Osvaldo
Sempre fui um rapaz de bichos, então ia muito a petshops. Tive gatos e cachorros, o que me fazia constantemente buscar seus alimentos e fraldas nestes estabelecimentos. Porém, mudando a rota uma vez, deparei-me com a ala dos peixes, e logo os betas chamaram minha atenção, eram lindos peixes pequenos, com as mais diversas cores, o tronco em uma, a cauda e as barbatanas em outras. Eram lindos, mas pareciam nadar sem sentido, naqueles minúsculos cubículos em que ficavam enclausurados. Nadavam estúpidos, pareciam não ter ciência de onde estavam, e seus olhinhos levemente saltados aumentavam ainda mais o aspecto infantil deles. Qualquer animal que pode ser pescado não pode ser considerado inteligente, pensei eu. Mas algo em sua beleza e o seu valor acessível me fizeram levar um para casa, escolhi um de tronco preto, mas com algumas escamas purpureas, e a cauda e as nadadeira imensas como a saia de um vestido, em cores entre o preto e o azul. Chamei-o Osvaldinho. Ele saiu do petshop dentro de uma beteira muito pequena, mas eu já possuía um aquário maior para ele.
Sua nova casa possuía 9 litros e um único cômodo, pedras escuras forrando o fundo, uma planta artificial, um sistema de aquecimento rústico e um submarino amarelo, como o dos Beatles, para ele explorar. Já parecia muito melhor. Seu nado agora era menos estúpido, parecia realmente estar explorando seu novo ambiente, comia várias das bolinhas minúsculas que eu jogava na água, tão pequenas que eu não entendia como apenas 5 eram suficientes, como me disse a atendente. Ele mostrava-se tão interessante que até minha mãe e irmão começaram a se interessar por seu gênio. “Não sabia que eram inteligentes também, vê, ele até sabe que quando estou perto vou dar comida, ele vem na minha direção como quem pede!”. maravilhava-me que era tão astuto quanto bonito, aquele peixe. E tudo que fazia era nada, e era o suficiente.
Ele adorava se aconchegar próximo ao termostato, devido ao calor que emitia, e construiu ao seu redor uma pequena rede de bolhas, como uma casa, que era sua forma de demonstrar que se sentia confortável e amado. Isso me encheu de alegria. Eu e meu irmão víamos vídeos juntos sobre expansões para sua casa, novos peixes a inserir e quem sabe até fazê-lo acasalar. Planejamos tudo.
Durante mais de mês ele viveu desta forma, revezava-mos para alimento, de acordo com a disponibilidade de cada um e ele estava feliz. Eu limpava sua casa uma vez por semana; quando ele era novidade limpava duas, mas uma já o bastava. Então o trocamos para um aquário duas vezes maior que seu antigo, onde coube mais uma planta artificial, um termômetro e um filtro, que acabamos por nem usar, pois era potente demais para a litragem de sua casa, e ele o usava para dormir e descansar, deitando sobre seu topo.
Porém, em algum momento, ainda com a compra de sua casa recente, Osvaldo adoeceu, não sabia se tinha limpado errado, se não tinha limpado na frequência correta, se era algo relacionado ao tamanho ou ao filtro, mas, agora, o peixe só ficava no topo do filtro, como se não conseguisse manter por muito tempo o fôlego, e comia pouco. Trocamos a água, perguntamos aos veterinários, compramos testes para a amônia e para o ph, mas nada deu alteração, tentávamos de tudo e não tínhamos solução, podíamos apenas observar e esperar o melhor.
Mas, durante uma manhã como as outras, deparei-me com seu corpinho, ainda lindo, mas já com menos cor, imóvel nas pedras ao lado do submarino amarelo. Não soube o que sentir. Não sei se foi minha culpa, se o negligenciei, se não devíamos ter trocado sua casa, se não dei atenção o suficiente ou se simplesmente era pra ser. Não, não era para ser, foi porque eu falhei com meu amigo.
Não entendo de forma alguma para onde ele possa ter ido, porque teve de ir ou porque me doía tanto, mas me doeu e dói. A ausência de seu silencioso amor e agradecimento me machucam, ainda mais porque me sentia de alguma forma responsável e sabia que ele não faria isso comigo. Quis nunca o ter conhecido, e nunca mais quis conhecer nada novo, nada que acabasse, nada que eu pudesse estragar.
Enterrei-o no quintal e sofri durante um tempo ao ver o local onde ficava sua casa vazio. Eu tentava me convencer de que o amor proporcionado por sua vida era maior que a dor de sua partida, e era, realmente, mas o peso da eternidade e a última imagem que eu tive dele me esmagaram. Nunca mais fui a ala dos peixes no petshop.
